“O homem é um animal amarrado a teias de significado que ele mesmo teceu, e tem a cultura como sistemas entrelaçados de signos interpretáveis” (GEERTZ).
Ainda de acordo com o antropólogo Clifford Geertz, o homem faz da sobrevivência uma prática social e para tanto estabelece relações com os outros homens e com a natureza. No âmbito da prática econômica transforma os bens para o seu consumo e manutenção da vida. No âmbito simbólico age produzindo símbolos, sendo os símbolos tidos como os valores, idéias, leis, linguagem, que dão significado a sua existência.
Sabemos que a prática econômica está inteiramente ligada aos símbolos criados pelas instituições públicas e privadas, que determinam as diretrizes da sociedade humana. Diretrizes embasadas no consumo. Assim, levaríamos para casa o valor de uso do produto, imbuído de um signo que produz um significado reconhecido pela sociedade. Algo como comprar uma calça jeans por um preço 20 vezes maior que seu valor de produção pelo simples fato dele ser de uma determinada marca ou por uma modelo ou atriz renomeada tê-la usado anteriormente. Lembrando que estas personalidades midiáticas fazem a vez dos mitos, que na Mitologia Grega se valiam dos ritos para ditar regras e condutas. Foco nas representações e no consumo. Algo como se valer destes fatores para atribuir um significando ao produto e uma ilusão ao consumidor, impondo (mesmo assim) um sentido à experiência.
Cassirer (1994) vai ao encontro deste pensamento quando, para ele, imagens percebíveis sensorialmente são impregnadas de experiência humana por meio destes símbolos pré fixados pela sociedade, formando uma estrutura de significados denominada cultura. Cultura como “modos de fazer, práticas corporais, crenças, saberes, gostos, hábitos e estilos, artes, concepção de mundo, conceitos de natureza, de sociedade e de humanidade, as noções de sagrado, de proibido, de obrigatório, as relações econômicas, políticas e familiares, as religiões, as profissões, etc”, sistema simbólico constituído por estrutura de significado socialmente estabelecida.
Tem-se que infelizmente a necessidade de preservação no meio ambiente parece não compor este contexto simbólico atual, já que o que tem valor está justamente no vértice oposto da preocupação com meio, referindo-no ao já mencionado consumo. A necessidade de consumir uma gama cada vez maior de produtos de diversos tipos é o que está inserido nas mensagens divulgadas no que chamam de praça pública da atualidade, a mídia. Tendo como praças públicas o ambiente nos quais os homens de poder se encontravam para disseminar idéias e ditames sociais em épocas passadas.
Mais uma vez de acordo com Geertz, as instituições ordenariam os padrões de conduta, “que decorrem de atitudes condicionadas em normas e baseadas em valores determinados tanto pelas crenças quanto pelas idéias”.
Instituições estas que agora governam o comportamento de uma outra forma. Controlam a sociedade na medida que o espectador está do outro lado da TV, em suas salas de estar, participando dos discursos atuais. Discursos que, conforme já dito, raramente contém mensagens subliminares de proteção do nosso meio.
Entretanto, como mencionado em estudos apontados por Marcelo Simão Mercadante sobre serem os processo de interconexão entre saberes, práticas e conhecimentos relativos ao meio ambiente, o interesse é o que determina a apreensão dos saberes. “Os órgãos do sentido são geneticamente programados para coletar informações brutas do meio que nos cerca, mas a cultura não só arruma e hierarquiza estas informações como seleciona nossa atenção para o que seria realmente relevante num dado momento, evitando assim que sejamos bombardeados por um excesso de informações que dificilmente poderíamos elaborar e dar coerência, impedindo assim qualquer ação”.
O que pode significar dizer que, no caso ambiental, enquanto não houver ação dos então reguladores sociais (sobretudo a mídia) em busca de uma conscientização do nosso papel de agentes protetores do meio, provavelmente a sociedade não absorverá o significado disso. Lembrando que a realidade que apreendemos hoje, referente ao consumo, é a que já tem sido por algum tempo ditada nestas mensagens, no caso subversivas, dos veículos de comunicação. Conforme dito, uma prática de comportamento não muda se não estiver absorvido em nosso conhecimento.
E já que foram mencionados os interesses e a sala de estar, interessante pontuar a diferença entre o que rege a vida dos ameríndios, que se valem de seus significados ancestrais mais ricos, protegendo sua casa que é seu meio ambiente, e nós, seres urbanos. Nós, seres da mesma espécie que não percebemos que a verdadeira casa não é nossa residência numerada, fechada aos quatro cantos para proteger nossos bens, sendo esses (“graças a Deus”) constituídos dos melhores móveis, em sintonia com o design mais atual.
Questão, entretanto, de costumes e de comportamento. Questão de senso comum de cada sociedade. Na nossa, por exemplo, talvez tenha sido costumeiro não se importar com as consequências de cada ato uma vez que são alcançados lucros. Alguns responsáveis de empresas de celulose, tema que será abordado em trabalho futuro (tal como toda esta questão de consciência social por meio dos veículos atuais), talvez até hoje não percebam os malefícios de jogar resíduos de sua ação nas águas de rios. Mesmo tendo tido que se adequar, devido a regulamentações na década de 80, quanto aos impactos de sua ação. E espera-se que toda a apreensão desta responsabilidade seja cada vez mais por eles positiva, já que pela teoria também mencionada nos estudos de Mercadante “uma vez delimitada uma gama de conhecimentos acerca do meio ambiente, ou mesmo de um ponto dentro deste meio, este corpo de informações formata sua percepção”. E ainda ”o que conheço vai influir diretamente sobre o que faço, no como faço”.